[Crítica] 4 por ''O Globo''

RIO - Com apenas 29 anos, Beyoncé Knowles sabe muito bem como é duro o desafio do disco seguinte a um megassucesso, como foram "I am... Sasha Fierce" e a coqueluche mundial "Single ladies (Put a ring on it)".

Inteligente e bem-assessorada (embora tenha se divorciado artisticamente e profissionalmente do pai, Mathew Knowles), principalmente pelo maridão, Jay-Z, a diva se dedicou por mais de um ano à produção de "4", que tem lançamento oficial no Brasil hoje. O resultado, no entanto, é mais ou menos um retrato de Beyoncé: tudo muito cuidado, polido, caprichado... mas falta música.
Suposta influência africana

O primeiro single do disco, "Run the world (Girls)", que está desde abril pelas rádios e pela web (com diversos remixes, inclusive), é o candidato a "Single ladies" da vez, com um refrão repetido dezenas de vezes e uma batucada meio afro (Beyoncé falou aos ventos sobre a influência de Fela Kuti em seu trabalho), meio funk (no sentido carioca do termo). Mas falta substância e sobra produção, um padrão que se repete ao longo do disco - é impressionante o número de envolvidos na engenharia de gravação, mixagem etc.



O disco começa com "1 + 1", que tenta ser uma balada soul embalada por versos como "Eu não sei muito de álgebra. Mas sei que um mais um é igual a dois". Dureza.

As canções românticas genéricas grassam pelo disco, como "I miss you" e "Rather die young". Em todas, Beyoncé mostra que sabe cantar - o que não chega a ser novidade -, mas não há nada que as torne mais marcantes. Poderiam ser músicas de Alicia Keys, Christina Aguilera ou de várias outras cantoras do gênero. O excesso de teclados e camadas sonoras parece realmente ser destinado a disfarçar a fragilidade do repertório.

Nas músicas mais animadinhas, o panorama melhora um pouco. Mas só um pouco. "Party", com participação de Andre 3000, do duo OutKast, tem cerca de 30 segundos de música que são "colados" um após o outro, até que se completem os quatro minutos da faixa. Uma influência de Stevie Wonder ("For your love" é vivamente lembrada) e um rapzinho de Dre não salvam. A coisa melhora em "Countdown" e "Love on top".

A primeira, possivelmente a melhor do disco, consegue reunir o hip-hop (gênero sempre associado a Beyoncé, mas que pouco dá as caras) com um cheiro de ragga e de África; "Love on top" é uma canção mais ensolarada, com baixo e bateria usados em uma levada gostosa, dançante, e os vocais (todas as dezenas deles que parecem ter sido gravadas) formando uma linha melódica de verdade. "End of time", com uma levada percussiva meio Olodum, é outra que se salva.

Mas é pouco. No momento em que chegou ao topo, com todos os recursos para investir na música, Beyoncé parece preferir a imagem.




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